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Estudo indica que ‘ciclo natural do sal’ em escala global está sendo modificado

Geólogo lidera pesquisa e descobre que o influxo de sal em córregos e rios representa uma ‘ameaça existencial’

Bachelot Pierre J-P via Wikimedia Commons

Fonte

Universidade de Maryland

Data

segunda-feira, 6 novembro 2023 17:30

Áreas

Agronomia. Ciência Ambiental. Geociências. Geografia. Hidrologia. Química. Recursos Naturais. Saúde. Sociedade. Solo.

A demanda de sal por parte da sociedade tem um custo tanto para o ambiente como para a saúde humana, de acordo com uma nova revisão científica liderada por geólogo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

Publicado na revista científica Nature Reviews Earth & Environment, o estudo liderado pelo professor Dr. Sujay Kaushal revelou que as atividades humanas estão tornando o ar, o solo e a água doce da Terra mais salgados, o que poderá representar uma ‘ameaça existencial’ se as tendências atuais forem mantidas.

Os processos geológicos e hidrológicos trazem sais para a superfície da Terra ao longo do tempo, mas as atividades humanas, como a mineração e o desenvolvimento de terras, estão acelerando rapidamente este ‘ciclo do sal’ natural. A agricultura, a construção, o tratamento de águas e outras atividades industriais também podem intensificar a salinização, o que prejudica a biodiversidade e torna a água potável insegura em casos extremos.

“Se você pensar no planeta como um organismo vivo, acumular tanto sal pode afetar o funcionamento de órgãos vitais ou ecossistemas. Remover o sal da água consome muita energia e é caro, e o subproduto da salmoura que você obtém é mais salgado do que a água do oceano e não pode ser facilmente descartado”, disse o professor Kaushal.

Os pesquisadores descreveram estas perturbações como um ciclo antropogênico do sal, estabelecendo pela primeira vez que os humanos afetam a concentração e a ciclagem do sal numa escala global e interligada.

“Vinte anos atrás, tudo o que tínhamos eram estudos de caso. Poderíamos dizer que as águas superficiais eram salgadas aqui em Nova Iorque ou no abastecimento de água potável de Baltimore”, disse o Dr. Gene Likens, coautor do estudo e  ecologista da Universidade de Connecticut e do Cary Institute of Ecosystem Studies. “Mostramos agora que é um ciclo – das profundezas da Terra à atmosfera – que foi significativamente perturbado pelas atividades humanas”. O novo estudo considerou uma variedade de íons de sal encontrados no subsolo e nas águas superficiais.

‘Sais’ referem-se a compostos muito além do sal de cozinha comum, destacou o professor Sujay Kaushal: “Quando as pessoas pensam em sal, tendem a pensar em cloreto de sódio, mas o nosso trabalho ao longo dos anos mostrou que perturbamos outros tipos de sais, incluindo aqueles relacionados com calcário, gesso e sulfato de cálcio”.

Os pesquisadores mostraram que a salinização causada pelo homem afetou aproximadamente 10 milhões de km2 de solo em todo o mundo – uma área aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos. Os íons de sal também aumentaram em riachos e rios nos últimos 50 anos, coincidindo com um aumento na utilização e produção global de sais.

O sal até se infiltrou no ar. Em algumas regiões, os lagos estão secando e enviando nuvens de poeira salina para a atmosfera. Em áreas com neve, os sais das estradas podem se tornar aerossolizados, criando partículas de sódio e cloreto.

A salinização também está associada a efeitos ‘em cascata’. Por exemplo, a poeira salina pode acelerar o derretimento da neve e prejudicar as comunidades que dependem da neve para o abastecimento de água. Devido à sua estrutura, os íons salinos podem se ligar a contaminantes nos solos e sedimentos, formando ‘coquetéis químicos’ que circulam no meio ambiente e têm efeitos prejudiciais.

“O sal tem um raio iônico pequeno e pode se fixar entre as partículas do solo com muita facilidade”, destacou o professor Sujay Kaushal.

Para evitar que as vias navegáveis dos EUA sejam inundadas com sal nos próximos anos, o professor Kaushal recomendou políticas que limitem o sal nas estradas ou incentivem alternativas: “Existe o risco de lesões em curto prazo, que é grave e algo em que certamente precisamos pensar, mas há também o risco em longo prazo de problemas de saúde associados ao excesso de sal na água”, disse o Dr. Kaushal.

Os autores do estudo também apelaram à criação de uma ‘fronteira planetária para a utilização segura e sustentável do sal’, da mesma forma que os níveis de dióxido de carbono estão associados a uma fronteira planetária para limitar as alterações climáticas.

O professor Kaushal disse que embora seja teoricamente possível regular e controlar os níveis de sal, isso traz desafios únicos: “Esta é uma questão muito complexa porque o sal não é considerado um contaminante primário da água potável nos EUA, portanto, regulá-lo seria uma tarefa árdua. Mas eu acho que é uma substância que está aumentando no meio ambiente a níveis prejudiciais”, concluiu o Dr. Sujay Kaushal.

Acesse o resumo do artigo científico (em inglês).

Acesse a notícia completa na página da Universidade de Maryland (em inglês).

Fonte: Emily C. Nunez, Universidade de Maryland. Imagem: Sal cristalizado nas margens da Laguna Chaxa em San Pedro de Atacama, Chile. Fonte: Bachelot Pierre J-P via Wikimedia Commons.

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