Notícia

Ênfase em plantio de florestas como estratégia de mitigação climática prejudica conservação de biomas abertos

Estudo mostra que até mesmo cientistas dão pouca atenção à restauração de áreas de campos, savanas e desertos: programas que estão plantando árvores nestas regiões podem causar sérios danos ambientais

Pixabay

Fonte

Jornal da Unesp

Data

quinta-feira, 11 novembro 2021 06:50

Áreas

Biomas. Ciência Ambiental. Conservação.

No mundo inteiro, a exuberância das nossas florestas serve como um cartão de visitas. Tanto a Mata Atlântica quanto a floresta Amazônica são referências globais de biodiversidade, e as denúncias de desmatamento nestes biomas chegam a ganhar repercussão internacional. Porém, o outro lado desta proeminência florestal é que outros riquíssimos biomas brasileiros, tais como o Cerrado, tendem a ficar esquecidos, e os danos a que são submetidos tendem a chamar menos atenção. Esta distorção, porém, não se limita ao Brasil, e já está gerando complicações em diferentes países. Agora, um grupo de pesquisadores luta para alterar este quadro.

O período entre 2021 e 2030 foi nomeado pela Organização das Nações Unidas como a Década de Restauração de Ecossistemas. Esta designação foi proposta com o intuito de ressaltar uma via de ação alternativa, na luta contra os gases causadores de efeito estufa, a países e instituições. O objetivo é estimular a consciência quanto à escala da devastação da cobertura vegetal do planeta, e fomentar ações e programas destinados a reverter esse quadro, com foco na mitigação do aquecimento global. Porém, o modo como a campanha está estruturada pode levar a certos equívocos e efeitos colaterais indesejáveis. Alguns biomas estão sendo privilegiados em detrimento de outros, dando margem para uma diferença de status que pode levar a que, no final do período, áreas que abrigam os biomas menos valorizados venham a ser danificadas ou mesmo destruídas em definitivo, em nome de objetivos relevantes e nobres.

Recentemente, um grupo internacional de pesquisadores criticou essa distorção em um artigo publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. Os autores do artigo empregaram duas métricas. A primeira envolveu um levantamento de 50 mil menções a ecossistemas feitas na rede social Twitter, nos perfis de instituições parceiras da Década de Restauração de Ecossistemas que, em conjunto, possuem mais de 12 milhões de seguidores. Também foram avaliados outras 45 mil mensagens postadas na mesma rede em perfis de 18 grandes veículos de mídia voltados para a cobertura de temas de ciência e meio ambiente, de seis países, que possuem uma base de seguidores de 242 milhões de pessoas. As análises mostraram que havia um número muito maior de menções aos biomas florestais: 23% se referiam a florestas tropicais e subtropicais, e outros 45% tratavam exclusivamente de restauração de florestas. Quando, apara fins de comparação, a medição de menções foi associada à área ocupada por cada bioma, constatou-se que os biomas abertos receberam 9,6 vezes menos menções nos tweets, em relação aos biomas fechados.

A outra métrica usada pelos pesquisadores buscou avaliar as disparidades quanto ao conhecimento sobre os diferentes biomas e às ações adotadas em relação a eles. Ela teve por base uma análise sistemática de literatura científica armazenada no banco de dados Web of Science. Foram selecionados 367 estudos editados em inglês entre 1980 e 2021, para os quais se avaliou as coordenadas geográficas do bioma em questão e se havia menção ao plantio de árvores como ferramenta para restaurar o ecossistema. A análise mostrou que florestas tropicais, subtropicais e manguezais foram abordadas em quase 86% dos estudos mapeados, percentual em muito superior à área total do planeta que eles ocupam, estimada em 43%. Já os estudos sobre restauração em campos tropicais e subtropicais foram abordados apenas em 8.6% dos estudos, e os campos e savanas inundáveis, em 1.1%.

“Essa tendência de voltar a atenção majoritariamente para biomas fechados, como florestas tropicais, faz com que os biomas abertos como savanas, campos, desertos e campos rupestres sejam esquecidos”, disse a bióloga Dra. Alessandra Fidelis, uma das autoras do artigo. Professora do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Unesp no Campus de Rio Claro, ela estuda biomas abertos, como o Pampa gaúcho e o Cerrado. “E essa tendência a privilegiar os biomas florestais acontece até mesmo entre cientistas, infelizmente”, disse a professora.

A destruição destes biomas [abertos] poderá gerar duras consequências ambientais. Na África, o plantio de árvores nas regiões de savana — onde reside a maior parte da população do continente, e que dela depende para o seu sustento — já causa preocupações . No Brasil, há vários povos quilombolas cujo modo de vida se baseia na vegetação do Cerrado. E as bacias de alguns dos rios mais importantes, como o São Francisco, o Araguaia, o Paraná e o Tocantins passam por aquele bioma. Ali, o plantio de árvores em grande escala afetaria o ciclo da água, pois as árvores captam e retém a água da chuva em quantidade maior, prejudicando a recarga dos lençóis freáticos. O resultado afetaria a disponibilidade de recursos hídricos nestas bacias.  Além disso, estes biomas armazenam grande quantidade de carbono sob o solo, na forma de raízes e estruturas imensas e extremamente lenhosas. Porém, este carbono é liberado a medida que a vegetação é destruída.

A Dra. Alessandra Fidelis explicou que os cientistas ainda não sabem muito bem como é a melhor maneira de recuperar áreas de biomas abertos. “Mas não é plantando árvores neles que se vai reverter os danos que já foram causados, ou mesmo salvar o planeta. Nosso objetivo, com este e com outros artigos que já publicamos, é que as pessoas compreendam o valor que os biomas abertos têm”, concluiu a especialista.

Acesse o artigo científico completo (em inglês).

Acesse a reportagem completa na página da Unesp.

Fonte: Pablo Nogueira, Jornal da Unesp. Imagem: Chapada dos Veadeiros. Fonte: Pixabay.

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