Notícia
Pesquisadores revelam que regimes de seca têm forte influência sobre biodiversidade
Segundo estudo feito pela UFMG em parceria com universidade americana, variação de temperatura não é fator prevalente, como se acreditava
Dr. Brian Enquist, Universidade do Arizona
Fonte
UFMG | Universidade Federal de Minas Gerais
Data
sexta-feira, 10 setembro 2021 07:00
Áreas
Biologia. Ecologia. Geociências.
Os primeiros resultados de estudo coordenado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em colaboração com a Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, revelam que os regimes de seca têm influência fundamental sobre a diversidade da vida na Terra. As variações de temperatura não têm papel prevalente, como os cientistas pensavam. Por meio de abordagens macroecológicas, os pesquisadores testaram hipóteses sobre os mecanismos que criaram os padrões de biodiversidade em escalas continentais.
“O que encontramos muda nossa percepção sobre os impactos que a biodiversidade pode sofrer em cenários de mudanças climáticas globais”, afirmou o Dr. Danilo Neves, professor do Departamento de Botânica do ICB-UFMG. Ele é o primeiro autor de artigo publicado na revista científica PNAS.
O estudo vem produzindo, segundo o professor, um banco de dados sem precedentes sobre a composição de espécies nos diversos ecossistemas terrestres das Américas. Foram também compiladas árvores filogenéticas (filogenias) que representam as relações de parentesco (evolutivas) da maioria das linhagens de plantas terrestres. Esses resultados fazem parte de projeto de pesquisa financiado pelo Instituto Serrapilheira.
O professor Danilo Neves contou que a primeira etapa do trabalho destinou-se a enriquecer o conjunto de dados sobre a região da Amazônia – trata-se da maior lacuna no que se refere a informações sobre a biodiversidade em ambientes terrestres. “Partimos de um banco de dados preliminar sobre a diversidade de plantas em florestas de terras não inundáveis na Amazônia. Nesse novo esforço, focamos na inclusão de espécies encontradas em vegetações pouco estudadas, como as várzeas [florestas inundáveis] e as campinaranas [florestas sobre solos arenosos]”, explicou o professor, acrescentando que o novo conjunto de dados será base de futuros estudos sobre a ecologia de biomas tropicais.
Do extremo norte ao extremo sul
Conforme a hipótese do conservadorismo tropical, os principais grupos de animais e plantas se originaram em regiões tropicais, há centenas de milhões de anos. A biodiversidade em ambientes temperados (como nos Estados Unidos, no Canadá e no extremo sul da América do Sul), portanto, seria derivada desses grupos, e mais recente.
“A hipótese parte da premissa de que a menor diversidade de espécies nas regiões temperadas deve-se ao menor tempo que suas linhagens tiveram para se diversificar, em comparação com as regiões tropicais, onde a maior parte do Brasil se encontra, por exemplo”, observou o Dr. Danilo Neves.
A hipótese do conservadorismo tropical, segundo ele, também propõe que a colonização de ambientes temperados ao longo da história evolutiva aconteceu em poucos grupos de animais e plantas. Essa raridade evolutiva na colonização de novos ambientes é conhecida na literatura científica como conservadorismo filogenético. “Nesse trabalho, testamos as predições da hipótese do conservadorismo tropical levando em consideração todo o espectro de variação climática existente do extremo norte do Canadá ao extremo sul da Argentina e do Chile.”
Adaptações raríssimas
A visão mais aceita é de que a maioria das espécies teria surgido em ambientes nos quais o clima é mais úmido e tropical. Analisando os padrões de biodiversidade nas Américas do Norte e do Sul, o grupo liderado pelo Dr. Danilo Neves detectou que regiões extratropicais (sazonalmente frias) e com regimes de seca marcantes abrangem linhagens de plantas ainda mais recentes. “A flora de regiões xéricas [áridas], como os desertos do Atacama, no Chile, e de Sonora, na fronteira entre Estados Unidos e México, é derivada de um grupo extremamente restrito de linhagens da filogenia das plantas. Esse padrão indica que as adaptações necessárias para colonizar ambientes xéricos surgiram raríssimas vezes ao longo da recente história evolutiva das plantas”, afirmou o cientista.
Uma das principais contribuições do trabalho publicado na revista PNAS, reforça o professor do ICB-UFMG, reside na reiteração de que a condição de seca, negligenciada em estudos anteriores, é um fator, no mínimo, tão importante quanto o frio extremo para a distribuição da biodiversidade de plantas na Terra. “Tendo em vista que as adaptações para tolerar condições xéricas são evolutivamente raras, o impacto será imenso se ambientes úmidos se tornarem mais secos com as mudanças climáticas globais. Possivelmente, famílias inteiras de plantas seriam extintas nesses ambientes, já que muitas delas são desprovidas das adaptações necessárias para tolerar as secas”, concluiu o pesquisador.
Acesse o artigo científico completo (em inglês).
Acesse a notícia completa na página da UFMG.
Fonte: Teresa Sanches e Matheus Espíndola, UFMG. Imagem: Deserto de Sonora, nos Estados Unidos: conservadorismo filogenético. Fonte: Dr. Brian Enquist, Universidade do Arizona.
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