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Pesquisa relaciona contaminação por metais pesados no Rio Doce a deformações em insetos aquáticos
Cientistas do Laboratório de Ecologia Evolutiva e Biodiversidade (Leeb) do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB-UFMG) participaram de pesquisa inédita que relaciona os efeitos do rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco/Vale/BHP, em Mariana, em 2015, a mudanças na morfologia de um grupo de insetos aquáticos conhecidos como tricópteros. O ambiente analisado no estudo foi a bacia hidrográfica do Rio Doce, a partir do Rio Gualaxo do Norte – o primeiro a receber os rejeitos.
Embora os efeitos do rompimento da barragem continuem sendo estudados, os impactos ecológicos sobre os insetos aquáticos ainda são pouco conhecidos. Por viverem na água durante uma de suas fases, muitos deles dependem da boa condição dos rios para sobreviver e se desenvolver. Em geral, são organismos muito sensíveis a alterações no meio aquático, e, por isso, se em sua fase de larva a água estiver contaminada, seu crescimento é diretamente afetado, podendo surgir deformações em resposta ao desequilíbrio ambiental.
Por essa razão, alguns insetos podem ser usados como indicadores da qualidade do ambiente. Além disso, são de vital relevância para as cadeias alimentares, pois representam o alimento de peixes, aves e muitos outros organismos dos rios e até das florestas que os margeiam.
Mariposas
O tricóptero da espécie Smicridea coronata foi escolhido para avaliar como a presença de rejeitos de mineração na bacia hidrográfica do Rio Doce provoca variações no desenvolvimento morfológico dos insetos por ser muito comum na região. Os tricópteros adultos são geralmente caracterizados por quatro asas cobertas por muitos pelos, de modo que esses insetos se assemelham a pequenas mariposas. Sua cabeça e o tórax também costumam ser peludos e com longas e delgadas antenas. As deformações ou desvios assimétricos em sua morfologia podem ter consequências que afetam o desenvolvimento e sobrevivência dos organismos e até refletir-se no funcionamento do ecossistema.
Os estudos avaliaram os impactos ambientais causados pelo depósito do rejeito no rio por meio da medição de algumas estruturas do corpo das larvas e dos adultos, na comparação com indivíduos que cresceram em locais não afetados pelo rejeito. Os cientistas partiram da hipótese de que indivíduos que crescem em ambientes contaminados apresentam maior assimetria entre um lado e outro do corpo.
Resultados da pesquisa
Os pesquisadores mostraram que o número de insetos com deformações foi maior nas áreas impactadas da bacia em relação a áreas não impactadas. Entre todos os parâmetros medidos, a assimetria foi maior nas mandíbulas e nas asas dos insetos. As mandíbulas de larvas coletadas nos ambientes impactados apresentaram mudanças na posição dos dentes. Esse problema interfere na capacidade de alimentação, na proteção e na metamorfose dos insetos, especialmente no processo de produção de seda no aparelho bucal para construir os abrigos onde se transformam em pupa antes de passarem para a fase adulta.
De acordo com os resultados do estudo, essas variações assimétricas no corpo dos insetos podem, em longo prazo, afetar todo o ecossistema e a biodiversidade da região. Os pesquisadores do Leeb do ICB-UFMG afirmaram também que a relação causal entre o efeito da presença de rejeitos derramados no rio com o aumento de deformações nos insetos aquáticos analisados tem altas chances de estar ocorrendo em várias outras espécies, que continuam a lutar para sobreviver no rio poluído pelos rejeitos.
O estudo foi publicado na revista científica Environmental Monitoring and Assessment.
Acesse o resumo do artigo científico (em inglês).
Acesse a notícia completa na página da Universidade Federal de Minas Gerais.
Fonte: UFMG, com informações do Laboratório de Ecologia Evolutiva e Biodiversidade do ICB-UFMG.
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