Notícia

Ecossistemas de água doce estão em risco devido ao uso de glifosato

Comunidades de plâncton são prejudicadas mesmo sob as diretrizes de qualidade da água atualmente aceitáveis na América do Norte

Marie-Pier Hébert, Universidade McGill

Fonte

Universidade McGill

Data

sábado, 11 setembro 2021 07:45

Áreas

Biodiversidade. Biologia. Ecologia. Toxicologia.

Uma série de trabalhos de pesquisa recentes de uma equipe liderada pela Universidade McGill, no Canadá, descobriu que o herbicida glifosato pode alterar a estrutura das comunidades naturais de bactérias e zooplâncton de água doce. Notavelmente, os pesquisadores descobriram que para o zooplâncton, as concentrações aquáticas de 0,1 mg/L de glifosato foram suficientes para causar perda de diversidade.

“Como o plâncton forma a base da cadeia alimentar nos ecossistemas de água doce, é muito importante entender como as comunidades do plâncton respondem aos pesticidas amplamente usados”, disse o Dr. Jesse Shapiro, professor do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Universidade McGill. “Nossa pesquisa mostra que a estrutura dessas comunidades pode ser prejudicada sob as diretrizes de qualidade da água da América do Norte atualmente aceitáveis”.

Usando tanques de água doce para testar a toxicidade de agroquímicos

Os estudos de toxicidade geralmente dependem de testes de laboratório com uma única espécie, ignorando a possível influência de muitos fatores ambientais e interações entre espécies nas respostas da comunidade aos poluentes. Nesses estudos, os pesquisadores usaram uma matriz em grande escala de lagos experimentais, com capacidade de 1.000 litros, cheia de água do lago para obter uma melhor compreensão dos efeitos dos produtos químicos em organismos planctônicos de ocorrência natural. Eles registraram as respostas das comunidades de bactérias, algas e zooplâncton à presença individual e conjunta de três produtos químicos comumente usados ​​por agricultores em todo o mundo: o herbicida glifosato (usado para controlar ervas daninhas, principalmente em campos de milho e soja), o inseticida neonicotinoide imidaclopride (usado para controlar insetos sugadores e perfuradores) e fertilizantes nutritivos.

“Descobrimos que, quando aplicamos os pesticidas e fertilizantes sozinhos e em combinação, em uma ampla gama de concentrações, o glifosato foi o condutor mais influente da estrutura da comunidade entre os agroquímicos”, disse o Dr. Andrew Gonzalez, professor do Departamento de Biologia da Universidade McGill.

Bactérias de água doce e comunidades zooplanctônicas reagem de maneira diferente

Curiosamente, a contaminação com glifosato afetou as bactérias de água doce e o zooplâncton de maneira diferente. As comunidades bacterianas foram inicialmente afetadas por altas concentrações de glifosato, mas poderiam se recuperar desse estresse em poucos dias. “Acreditamos que elas conseguiram se recuperar porque vieram de um lago intocado e a comunidade inicial era diversa o suficiente para ‘amortecer’ um impacto tão grande”, disse Naila Barbosa da Costa, doutoranda em Biologia na Universidade de Montreal e primeira autora no artigo recente sobre bacterioplâncton na revista científica Molecular Ecology. “Não sabemos se as comunidades bacterianas de ecossistemas menos diversos seriam capazes de lidar com uma forte contaminação da mesma forma”, acrescentou a pesquisadora. Naila da Costa é bacharela em Ciências Biológicas e Mestra em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Na primeira exposição ao glifosato, a abundância e diversidade da comunidade zooplanctônica diminuíram rapidamente. Depois disso, a abundância total de zooplâncton se recuperou em menos de 3 semanas, mas o número de espécies (e, portanto, a diversidade) permaneceu baixo, especialmente em lagoas altamente contaminadas. Isso ocorre porque a aplicação de glifosato eliminou as espécies sensíveis, permitindo que as poucas espécies tolerantes assumissem o controle e proliferassem.

“A perda de espécies de longa duração e as mudanças de composição têm implicações claras para o funcionamento e estabilidade dos ecossistemas de água doce, mesmo quando a abundância do zooplâncton parece inalterada”, disse Marie-Pier Hébert, doutoranda no Departamento de Biologia da Universidade McGill e primeira autora do artigo publicado recentemente na revista científica Ecological Applications. “São necessários mais estudos para compreender como os efeitos do glifosato em cascata influenciam os ecossistemas de água doce, afetando sua saúde a longo prazo”, concluiu Marie-Pier Hébert.

Acesse o resumo do artigo científico publicado na revista Molecular Ecology (em inglês).

Acesse o resumo do artigo científico publicado na revista Ecological Applications (em inglês).

Acesse a notícia completa na página da Universidade McGill (em inglês).

Fonte: Katherine Gombay, Universidade McGill. Imagem: Uma das poucas espécies que se mostrou resistente à contaminação severa com glifosato foi a Scapholeberis mucronata, uma espécie de água doce comumente encontrada em Québec e em outras partes da América do Norte. Fonte: Marie-Pier Hébert, Universidade McGill.

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